Videolocadoras enfrentam crise diante de novas tecnologias

Serviços de streaming se tornaram a forma mais comum de consumir filmes – mas o velho método ainda possui suas vantagens

Por Vinícius Moschen

Um velho hábito dos fins de semana frios e chuvosos pode estar com os dias contados. Ir a uma videolocadora e passar bons minutos entre as estantes cheias de títulos não é mais do que uma lembrança para muitos. Porém, algumas particularidades desses estabelecimentos ainda seguram uma clientela fiel e apaixonada por filmes nas suas mídias mais antigas – sejam elas o blu-ray, o DVD ou até mesmo o finado VHS. Mas ainda é difícil definir se esses clientes existirão em número suficiente no futuro para manter pelo menos algumas dessas locadoras abertas.

A verdade é que vivemos uma era diferente. Serviços como a Netflix ou o Amazon Prime Video se tornaram a nova forma de assistir a longa metragens, assim como práticas ilícitas, como a pirataria online. Para efeito de comparação, com o preço de uma assinatura mensal do serviço online (R$19,90), é possível locar apenas dois filmes, com a exigência de retorno em até uma semana – no streaming, a disponibilidade é livre e sem prazos. Mesmo com as vantagens trazidas pelas novas tecnologias, ainda são registrados cerca de setenta empréstimos diários na videolocadora Cartoon Video, segundo Marcello Ribeiro Accioly, atendente da loja.

E engana-se quem pensa que somente os mais velhos mantém a tradição viva. Accioly explica que o perfil dos clientes é bastante variado, vai dos jovens até os mais idosos. Normalmente, as pessoas procuram as locadoras em busca dos filmes mais clássicos, que não são encontrados no Netflix. Assim, a estratégia é deixá-los em evidência. O atendente também aponta o caráter cultural do ato de sair de casa para locar um filme: “Nossa divulgação acaba sendo boca a boca, e quando alguém chega aqui, tem sempre a vantagem do atendimento”, explica.

O download ilegal de filmes se tornou também um grande inimigo das cerca de cem locadoras ativas de Curitiba (em 2005, eram 500 lojas abertas, segundo a Junta Comercial da cidade). Para Jorj Jarrouj, proprietário e atendente da Video Arte, isso demonstra uma falta de cultura do consumidor atual: “As pessoas levam vantagem. Pensam: ‘Eu assisto de graça, para que vou pagar?’ Mesmo com má qualidade. Quem é que ganha com isso?”, indaga. Por causa disso, segundo ele, a indústria do cinema não arrecada, causando um retrocesso na produção de novos filmes. Jarrouj também destaca a interação que acontece com o atendente, uma pessoa que pode sempre conversar sobre determinado título, criticar e fornecer sugestões – muitas vezes de forma mais eficiente que o algoritmo da Netflix – “Quando o filme é ruim, ele fala mesmo!” brinca Ana Alves, cliente antiga da locadora.

Diante da concorrência, também existe o chamado “Video Ticket”, que é um sistema de fidelidade parecido com uma mensalidade de streaming. O entusiasta paga uma taxa prévia para locar uma quantidade maior de filmes por um preço menor. Para muitos clientes, porém, o hábito se manteria de qualquer jeito, até pela falta de títulos no catálogo online: todos os filmes novos chegam antes às locadoras do que aos computadores, como lembra Alves.

Em geral, os donos e atendentes de locadoras não apresentam muito otimismo em relação aos próximos anos. Accioly não vê um futuro muito claro, e aponta que o caminho das novas mídias não tem volta. Jarrouj aponta a impossibilidade de abertura de novos estabelecimentos: simplesmente não tem como se manter: “Para mim, tá quase valendo mais a pena alugar meu imóvel do que trabalhar no balcão”, lamenta. Resta aguardar e torcer para que as locadoras sobrevivam, mesmo que somente como uma atividade cult.

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