Você ou alguém próximo pode ter depressão. Descubra como identificar e enfrentar a doença

A depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde

Por Bruna Falce

Mudanças nos hábitos e atitudes presentes na rotina, além de episódios depressivos podem ser os principais sintomas pra identificar alguém com depressão. Amigos e familiares próximos conseguem perceber essas alterações. Muitas vezes pequenas mudanças no comportamento podem representar uma depressão.

Nem todo episódio depressivo é caracterizado como grave. Existem situações em que a depressão é categorizada como leve ou moderada. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um caso considerado leve pode interferir nas atividades sociais, de trabalho e domésticas do indivíduo. Um caso grave pode ter uma interferência muito maior, fazendo com que a pessoa não consiga sequer dar continuidade às suas atividades diárias. Um caso considerado grave pode evoluir para tentativas de suicídio. É preciso estar sempre atento, o quadro pode evoluir aos poucos e passar despercebido.

Gabriel Kaahara, 27, faz tratamento para depressão desde os 18 anos. Ele decidiu procurar tratamento após a segunda tentativa de suicídio. “Tentei me matar duas vezes, da última vez eu percebi que estava ficando muito sério”, conta. Para ele, o sintoma da depressão que mais o incomoda é a sensação de incapacidade. Gabriel, que atualmente é auxiliar administrativo em um escritório de advocacia, já começou dois cursos superiores, biologia na UFPR e letras inglês na UTFPR, mas não terminou nenhum dos dois. “Me sinto incapaz de fazer qualquer coisa além de existir e ocupar espaço. Eu acabo me sabotando para novas oportunidades e fico com medo. Por exemplo, tenho quase certeza que é por isso que não terminei nenhuma das faculdades”, afirma.

Kaahara diz que se sente desperdiçando seu tempo e as oportunidades boas que teve. No momento, percebe como a única solução “sair de casa e deixar minha mãe em paz. Sonhos já ficaram todos em segundo plano”. De todo modo, ainda espera fazer outro vestibular e lidar melhor consigo mesmo, o que ele considera difícil.

Depressão tem tratamento. O primeiro passo é identificar os sintomas.

Mas como identificar esses sintomas?

O mais importante é observar as mudanças no comportamento do indivíduo. Uma pessoa paciente passa a agir com irritabilidade. Um sujeito comunicativo começa a se isolar. Para o psicólogo clínico André Uniga Júnior, pode-se observar essas diferenças no dia a dia. Características como isolamento, mudanças na rotina, uma sensação de estar sempre “para baixo” e diminuição de contato com outras pessoas podem sugerir um episódio depressivo. Franciele Cristina Tozo, também psicóloga, explica que uma pessoa deprimida também tende a deixar de fazer o que gosta e apresenta características como se irritar facilmente, dificuldades de memória e mudanças na alimentação (tanto a diminuição quanto o aumento dela).

A depressão pode levar ao suicídio. Para identificar os sinais de risco deve-se observar tristeza intensa durante vários dias, falta de interesse e planos para o futuro, falar frases como “você estaria melhor sem mim” ou “talvez devesse sumir”, tentativas prévias de suicídio e doação inexplicada de objetos valiosos.

Segundo André Uniga Junior, uma maneira de identificar os sintomas com mais facilidade é através do livro (ou dos vídeos no YouTube) Eu tinha um cachorro preto: seu nome era depressão. O cão negro representa os sintomas da depressão. Quando um indivíduo deprimido tem contato com o vídeo, ele pode associar suas características ao que está representado pelo cão negro e, assim, identificar a necessidade de procurar um tratamento.

E como a família pode ajudar?

(Fonte: Reprodução)

É essencial estar sempre atento às atitudes de seus amigos e familiares. Para Uniga, é papel da família perguntar coisas como “O que está passando pela sua cabeça? Por que você está sozinho?”; ou fazer outros questionamentos pertinentes que possam auxiliar na busca por apoio terapêutico, caso seja necessário.

Gabriel conta que aos 18 anos sua mãe o obrigou a fazer acompanhamento psiquiátrico, mas a médica era amiga de sua mãe. Ele não se sentia confortável em conversar com a profissional e o tratamento não estava ajudando o suficiente. “Então, ela me mandou num intercâmbio forçado pro Canadá. Morei lá por um ano e três meses e foi a melhor coisa que me aconteceu”, diz. Gabriel conta que durante o intercâmbio aprendeu “a viver um dia de cada vez” e nunca mais tentou suicídio, apesar dos pensamentos voltarem de vez em quando.

Ainda segundo Kaahara, “o povo do Canadá (tanto da escola quanto dos empregos que tive) é muito hospitaleiro e incentivador e não deixavam a gente ficar muito a sós com nossos problemas, ou se sentir desamparado”. Quando voltou para o Brasil, disse que passou pelo “famoso sintoma de ‘de volta à realidade’ quando você volta pra casa”.  

A família deve escutar com atenção e deixar a pessoa falar. Durante essas conversas não pode sentir medo de perguntar sobre intenções suicidas e então buscar ajuda profissional (mesmo que a pessoa resista). Se necessário, até levar a pessoa para a consulta.

Acho que é depressão. E agora?

Agora está na hora de procurar um médico psiquiatra ou um psicólogo clínico. O tratamento pode ser realizado com medicamentos antidepressivos, através de psicoterapia ou com a combinação dos dois, dependendo de cada caso.

Segundo a OMS, em geral, os antidepressivos devem ser utilizados apenas em situações consideradas moderadas e graves. Também existem outras formas de intervenção, que podem ser avaliadas junto ao profissional. Os tratamentos psicológicos, indicados para casos leves, moderados e graves, podem ser realizados individualmente ou em grupos.

É importante que ao perceber os sintomas procure um profissional adequado. O quadro pode ser controlado, através de tratamento contínuo e ininterrupto, e a pessoa pode voltar a realizar suas atividades normalmente.

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